Resenha Crítica Valsa Maldita (Playing with Fire) de Tess Gerritsen (sem spoilers)
O livro surge como um suspense em torno do que seria uma música obscura, de significado, origem e efeito desconhecidos e nebulosos.
Valsa Maldita começa com a história de Julia Ansdell, uma violinista, que em uma viagem a Roma encontra uma partitura antiga em um antiquário. Encantada pela música que soa em sua cabeça ao ler as notas ela leva a partitura para casa nos Estados Unidos.
Em uma tarde no seu quintal ela decide ensaiar a música enquanto sua filha, Lilly de quatro anos, brinca por perto. Com o soar da música Lilly inicia uma série de comportamentos bizarros e sangrentos que fazem Julia temer a própria filha.
Juntamente com a história de Julia, alternando-se os capítulos, o livro conta a história de Lorenzo, jovem italiano violinista de extremo talento vivendo entre as décadas de 30 e 40.
O desenvolver do livro é bem interessante pois a proposta dele vai se transformando conforme o livro avança.
Um aspecto muito interessante da narrativa é que a autora aproveita a trama de suspense psicológico para introduzir uma sutil crítica a romantização da maternidade e a tendência da sociedade de culpabilizar a mãe por tudo que acontece com o filho.(*)
Ela faz isso principalmente através dos pensamentos de Julia, que é a narradora de sua parte da história, e também o comportamento de sua família ao desenrolar dos acontecimentos que cercam sua filha.
Já a história de Lorenzo é um romance que mostra a vida dos italianos da época, anterior e início da segunda guerra, com tamanha ternura que você se afeiçoa aos personagens percebendo sua humanidade, seus erros e suas virtudes, de forma que você consegue realmente vivenciar os acontecimentos em suas vidas, embora sejam pessoas tão distante em tempo e espaço.
Quando a narrativa se aproxima do clímax as duas histórias começam a se cruzar, de forma que todos os outros aspectos do livro passam a ficar em segundo plano e as emoções tomam conta do leitor. Medo, aflição, angústia.
A história é muito criativa, nos gêneros de terror/suspense não se atém aos típicos demônios e fantasmas de casas assombradas. Consegue unir o drama e a tragédia com o suspense/terror, se tornando mais deprimente do que assustador.
Eu já havia lido um outro livro da autora "A Garota Silenciosa" que segue a mesma linha de suspense/mistério, que também mistura elementos de fantasia, no entanto a história não é nem de perto tão envolvente e comovente como a Valsa Maldita.
(*)Essa parte foi separada para aprofundar a respeito da forma que ela construiu a crítica a romantização da maternidade, que achei extremamente interessante e não-óbvio para pessoas não familiarizadas com a temática.
O casal Ansdell segue o padrão de casal que vemos das duas últimas décadas: ambos pais são profissionais e trabalham, no entanto a mãe é descrita com um trabalho mais flexível, em que a carga horária e dedicação podem ser ajustadas para adequar as necessidades da família, que no caso é a filha pequena.
Apesar de ser uma profissional dedicada, que inclusive necessita de viagens a trabalho, ela não recebe a mesma relevância profissional que o marido. Tendo que moldar sua vida em torno da filha, faltar ao trabalho para levá-la ao médico e sendo a principal responsável por todas as obrigações referentes a criança.
Nota-se com os acontecimentos do livro que qualquer impedimento de Julia de se dedicar a filha, a responsabilidade de cuidar da criança passa à uma terceira pessoa, a tia de Julia - uma mulher-, pois o marido é incapaz de cuidar e lidar com a filha em total responsabilidade sozinho.
Outra coisa que fica bem clara é o estigma do dever absoluto da mãe de amar o filho incondicionalmente e nunca lhe fazer mal. Isso fica salientado nas palavras, provavelmente intencionais, da autora "o pecado mais imperdoável que uma mulher pode cometer".
As escolhas das palavras da autora mostra que ela não concorda com essa romantização da maternidade, mas ela faz isso de forma tão sútil que uma pessoa que não vê nada de errado com isso poderia nem perceber que se trata de uma crítica e talvez sentisse o desconforto por si mesma, sem sentir que foi transmitido de propósito.
Apesar de Julia trabalhar, é óbvio que aconteceu com ela o que acontece com a maioria das esposas modernas: as tarefas domésticas recaem sobre ela. Julia não só é a pessoa que cozinha as refeições como também tem responsabilidades como engomar a gola das camisas do marido, estas sendo exibidas no dia-a-dia de Julia.
Em momento nenhum Julia questiona suas responsabilidades dentro da casa, mesmo quando veem que elas estão se voltando contra ela. Ela segue com a dúvida de que é tudo culpa dela, e que é ela quem está falhando. Que a responsabilidade é dela e de mais ninguém.

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